Diário da Manhã
Carlos Alberto Santa Cruz
Um eleitor histórico de Marconi, desde os tempos do PMDB Jovem, comemorava eufórico, na feira da Vila Nova:
– Afinal, agora o Marconi traz para o governo um político de
votos. O Zé Gomes, de Itumbiara, que tem quase todos os votos de lá e
ainda os transfere a quem quiser. Aliás, poucos são os políticos de
votos dentro do governo e podem ser contados nos dedos de uma das mãos:
Célio Silveira, Roberto Balestra, Vilmar Rocha, Júlio da Retífica,
Thiago Peixoto. Assim mesmo, nenhum deles ganhou eleição e sua cidade.
Os outros nunca perdem, porque nunca concorrem, nem a síndico. Só
ganham, porque amanhecem no Diário Oficial com carro preto, motorista,
status, celular zero 800, sem limites, linha direta com o governador e
ainda bom salário, afora as diárias de viagens. E uns ainda dizem que
não são políticos e não gostam de política. Têm mais medo do voto do que
trombadinha da Rotam - falou eloquente esse eleitor qualificado que
parece entender mais de política do que muitos secretários de Estado.
– Mas o Ministério Público Federal está querendo impedir que José
Gomes seja presidente da Saneago, alegando ser ele ficha suja –
provoquei-o, sem sequer saber o nome daquele animal político, que agora
desceu de sua eloquência e veio quase coloquial
– O senhor sabe de que o Zé Gomes é acusado, não? Pois eu lhe
digo: como deputado federal, ele contratou em seu gabinete os jogadores
do Itumbiara Futebol Clube, os neguinhos das pontas de rua que fizeram a
alegria do seu povo. Enquanto isto, os outros deputados nomearam
amantes, genros parasitas, filhos inúteis de chefes políticos, que nunca
trabalharam, ou até funcionários fantasmas, cujos salários vão parar no
bolso do próprio deputado. No caso de Zé Gomes, me diga aí onde está a
corrupção? Ele usou o dinheiro público em benefício próprio ou de
apadrinhados? Não. O dinheiro foi destinado ao esporte, à alegria, ao
lazer e à diversão da coletividade, do seu povo, o agradecido povo de
Itumbiara que o tem como herói. Se todo deputado fizesse o que o Zé
Gomes fez, o Brasil nem precisaria dessa Lei da Ficha Limpa, e o Vila
Nova não estaria nesta situação – misturou as coisas e mostrou as
acusações e a condenação que pesam sobre o ex-prefeito de Itumbiara.
Logo depois, o Itumbiara Futebol Clube foi campeão goiano, não
se tendo notícia de que ostentara o título antes ou depois. E Zé Gomes
virou o dono de quase todos os votos da mais importante cidade do Sul
goiano.
Desde antes ou desde sempre, ele tem uma biografia de
excentricidades, já legendário como herói ou picaresco, a começar pela
sua primeira eleição de vereador, quando tinha apenas l8 anos, e então
nunca mais dormiu sem mandato, até janeiro último, aos 55 anos, quando
passou a Prefeitura de Itumbiara a sucessor de sua confiança.
É também marqueteiro perigoso, pois os gestos e atitudes que
tiram votos dos outros, nele os votos se multiplicam. Chegou ao
Congresso Nacional com um macaquinho no ombro e saiu na revista Veja;
voltou para Itumbiara, bateu em num promotor de Justiça em público,
correu atrás do oficial de Justiça, que perdeu o mandado na carreira, e
ainda rosnou: “Esse moleque já estava passando da idade de peia.”
Consta que era candidato a deputado, e de passagem pela cidade de
Crixás, Zé Gomes viu placa de uma rádio comunitária. Chegou, se
apresentou e logo estava no ar. Depois de cumprimentar o povo com o
coração e derramar emoção sobre a cidade, passou a falar:
– “Esta á a Região dos Caiado. Aqui eles têm mais bois do que
folhas de pau. Os Caiado não contam bois por números, eles contam por
hora, passando na porteira, e vão anotando, por exemplo, duas horas e
meia de bois, depois, chegam ao quantum. Mas, com tanto gado assim
-continuou o deputado – eu quero aqui lançar um desafio ao povo desta
região e, particularmente, às mães de famílias: eu estou aqui com R$ 1
mil , vinte notas de R$ 50 para dar a uma criança que tenha algum dia
bebido leite de vacas dos Caiado. E continuou com o lenga-lenga, até que
a rádio saiu do ar por queda de energia, mas ninguém compareceu. Zé
Gomes foi embora, e deixou a cidade brigando e nunca mais voltou lá.
Consta que na eleição foi o segundo mais votado.
Antes de Iris perder eleições, uma atrás da outra, estava acima
do bem e do mal, e sua vontade fazia o Parlamento tremer e até a espinha
da Justiça vergar, Zé Gomes o debicou e dele fez pouco caso: em 1990,
Iris Rezende tinha deixado o cargo de ministro da Agricultura No ano
anterior, Collor se elegera presidente e o deputado federal José Gomes
foi o comandante em chefe de sua campanha vitoriosa em Goiás. O
candidato do PMDB foi o dr. Ulisses Guimarães, com quem Iris rompeu,
porque ia perder, para apoiar Collor, porque sabia que ele ia ganhar. No
ano seguinte, inauguração do Conjunto Popular de Casas em Itumbiara, o
ex-ministro foi convidado para a solenidade marcada para as 11h. Na
véspera, o deputado Zé Gomes conseguiu a antecipação da inauguração do
conjunto para 9h. Quando Iris chegou lá, as casas já tinham sido
inauguradas e o ministro da área já tinha retornado a Brasília.
Tem ainda a sirene das ambulâncias e muitas estórias mais. Mas para frente que atrás vem gente.
Agora, o promotor federal Hélio Telho já intimou o governo de
Goiás a não dar posse para José Gomes na presidência da maior empresa
pública do Estado – Saneago. Acontece que o presidente da empresa não é
nomeado nem empossado pelo governador, mas pelo Conselho da empresa.E
consta que o ex-prefeito de Itumbiara já tomou posse.
Se o ex-prefeito de Itumbiara é raposa velha matreira, mais
velhaco do eu jacu de tapera, o dr. Hélio Telho é também caça remosa.
Ele é aquele promotor que denunciou e mandou para a cadeia Otoniel
Machado, que depois disto, de vergonha e de desgosto, exalou. E ninguém
mais ouviu falar nele ou dele.
A birra do promotor é porque José Gomes está condenado pelo
Superior Tribunal de Justiça (STJ), com recurso ao Supremo, acusado de
contratar em seu gabinete, quando deputado federal, jogadores do
Itumbiara Futebol Clube.
O dr. Hélio Telho pode estar birrado com o ex-prefeito por
razões técnicas, mas não morais. Judiciário é Judiciário e voto é voto.
Mas os poderes são originários do voto popular e não este daqueles. E
Lincoln nos ensinou que: “Um boletim de votos vale mais do que mil
sentenças e é mais forte do que um tiro de espingarda.” Desde os 18 anos
que Zé Gomes vive debaixo do manto do voto do mesmo povo, escorado em
37 longos anos de mandato popular, tempo para um promotor aposentar-se,
sem nenhum voto, com proventos de quase 50 salários mínimos mensais.
E ninguém é capaz de enganar o mesmo povo o tempo todo, pois o
presidente americano, assassinado num teatro, torna a nos lembrar que:
“Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo
enganar algumas pessoas todo o tempo: mas é impossível enganar toda a
gente o tempo todo.”
Estão aí na Arena do Coliseu dois gladiadores peso pesado. De um
lado, o dr. Hélio Telho, a toga, querendo crescer e aparecer, e do outro
Zé Gomes, o voto, querendo mais votos.
Essa contenda lembra-me o começo da carreira do jornalista Assis
Chateaubriand. Novinho, novinho, passara em primeiro lugar em concurso
público para professor da Faculdade de Direito de Recife, deixando para
trás causídicos famosos. Primeiro, enrolaram para mandar o seu nome ao
ministro da Educação. Depois que mandaram, esperou, esperou e a nomeação
nada. Resolveu inaugurar o estilo Chateaubriand que o acompanharia em
sua fulgurante carreira de jornalista e dono da maior rede de
comunicação do Brasil. Mandou de presente ao ministro da Educação uma
caixa fechada, com a recomendação “confidencial e em mãos”, e dentro da
caixa uma cascavel viva e junto com ela a advertência: “Dos métodos de
luta da Paraíba, este é o mais ameno. Exijo nomeação já. Francisco de
Assis Chateaubriand Bandeira de Melo.”.A nomeação saiu no mesmo dia.
É bom lembrar ao dr. Hélio Telho que Zé Gomes não é a caixa de Chateaubriand. Ele é a própria cascavel. De palhada.
(Carlos Alberto Santa Cruz, jornalista)